Apropriando-me do título da canção que José Afonso escreveu e gravou em 1974, reavivando igualmente uma justa memória à sua obra, resolvi extrapolar alguns dos conteúdos das palavras de O que faz falta. Talvez demasiado direcionado para apresentações consideradas excessivas e que se afastam do lugar-comum contemplativo da Pintura. São representações muito acomodadas à ilustração e ao mural, paradoxalmente subvertidas na escolha cromática. A intenção de utilizar uma linguagem declaradamente gráfica surge na analogia com o discurso directo do Desenho, que neste caso, se apresenta como uma escrita do imediato e que revela visualmente o seu autor. Nas referências documentais para a execução deste projecto, há muito no fundo da ‘gaveta dos projectos que um dia irei realizar’, incluí igualmente as muito actuais pinturas de Júlio Pomar alusivas ao Maio de 68, sem esquecer outras representações da temática, mais precisamente as ‘Batalhas...’ de Ucello, que o pintor tomou como próprias na sua adaptação, e que prosseguem de modo irrecusável o seu caminho construtor. Estas citações artísticas e fotojornalísticas são incontornáveis, já que Pomar tem sido ciclicamente uma lição de gesto e expressão gráfica, na acção do pincel e da tinta sobre o suporte. Aliás, foi ele o primeiro ‘grande mestre’ do meu trabalho! Optei por acomodar imagens da actuação de forças policiais e paramilitares, em cenários retirados de algumas cinematografias, do jornalismo televisivo, igualmente do registo histórico existente nos inúmeros servidores da internet, acrescido de encenações no atelier para uma mais prática estruturação destes documentos visuais. São quase exclusivamente momentos reactivos em manifestações várias, sobretudo quando estão em causa atropelos claros à dignidade social e aos mais elementares direitos da nossa existência social e democrática. Contudo, estas acções repressivas denotam sem surpresa, inúmeras contradições, sem esquecer que os seus actores cumprem industriosamente os seus papéis, em encenações e produções de carácter duvidoso! E se quem ocupa o seu lugar nestas forças encarregues da repressão ordenadora, cumpre também o seu papel no tecido social, há por vezes, quem interprete estes papéis demasiado à letra... O sangue que em ti derramo é também o meu! - é uma das pinturas estruturais para a abordagem à temática, esquiçada directamente na tela - alerta para esta situação pouco nítida, talvez mais pelo seu título e menos pela objectividade do que apresenta. Este projecto está visualmente dividido em dois momentos: por um lado, a representação violenta e consequente acção/ reacção dos seus actores, em registos intensos e socialmente politizados na sua exegese social, e por outro, o registo suave da cegueira instalada em todos nós. Quer dizer, uns mais que os outros! Mesmo com claras diferenças nos contextos sociais e neste intervalo temporal, nota-se que nos movemos na cegueira. Cegos ao que está claramente à nossa volta, cegos ao que acontece um pouco mais ao lado e do outro lado do globo. Estamos cegos aos atropelos incessantes a direitos básicos que ambicionamos para a condição humana, completamente anestesiados na materialidade e na comunicação visual mediática que preenche a cultura de massas. A tudo isto assistimos com inércia, num zapping inquieto que vai caracterizando a existência de muitos de nós, neste mundo da pós-televisão de acesso global.